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Uma agricultura para além do “só acredito vendo”

Uma agricultura para além do “só acredito vendo”

“O produtor rural, ao chegar da “lida”, no final do dia, senta-se para tomar um café e lançar um olhar contemplativo para a lavoura que ali cresce. É surpreendido por um alerta de mensagem em seu smartphone e se lembra de pagar uma conta pelo internet banking. Enquanto acessa um dashboard com dados de produtividade da sua lavoura, o produtor também escuta um podcast sobre cooperativismo.”

Seria esse o novo normal para o agricultor contemporâneo?

Essa cena, cada dia mais comum no meio rural brasileiro, retrata alguns aspectos da transformação digital no campo, a qual não faz referência apenas à implementação de novas tecnologias, mas a uma mudança de cultura, modelo e estrutura organizacional. Assim, o desafio é ainda maior para organizações que não nasceram digitais, como é o caso de muitos empreendimentos agrícolas.

Enquanto a Agricultura pode ser definida como a atividade cujo objetivo é promover a cultura do solo para a produção de vegetais e criação de animais para o homem, assim como um conjunto de técnicas dedicadas à produção em áreas cultivadas, nota-se uma relação indissociável entre cultura, técnicas e tradições, como aspectos fundamentais no ato de cultivar. Diante disso, e das atuais mudanças que a transformação digital vem promovendo no campo, qual seria o papel do agricultor nesse novo contexto?

Inicialmente, é preciso reconhecer que, no Brasil, faz-se necessário pensarmos em diferentes tipos de agricultores, já que a multiplicidade de perfis, cultura e contextos produtivos, impossibilitaria colocar todos eles em uma “mesma cesta ou roça”.

Dos mais tradicionais e analógicos, aos mais modernos e digitais, a cultura desses agricultores, tanto no sentido de crenças e hábitos, quanto na escolha de técnicas e tecnologias, é um aspecto crucial para impulsionar uma Agricultura mais eficiente, regenerativa e resiliente.

Meios para movimentar a cultura enraizada no tradicionalismo, do “só acredito vendo”, para uma cultura mais digital e experimental, do “só acredito experimentando”, pode ser um caminho potente para inserir tecnologias e técnicas mais sustentáveis no leque de opções para as tomadas de decisão desse público.

A nova forma de se fazer Agricultura

Vale a pena ressaltar algumas tendências contemporâneas para a forma de se fazer agricultura, as quais propõem ajudar a superar a visão conservadora e fragmentada, do “só acredito vendo”, e se apropriar de visões mais experimentais e integradas, construídas em bases mais sistêmicas.

Um exemplo disso é o conceito de Agricultura Digital, o qual consiste em um conjunto de tecnologias que auxiliam o produtor nas atividades rurais. Isso inclui softwares e dispositivos que coletam e analisam dados sobre a lavoura para viabilizar a automação e dar base para decisões estratégicas.

A própria IoT (internet das coisas), que já trouxe mudanças para o dia a dia das pessoas nas cidades, possui espaço garantido no ambiente rural, pois é uma tecnologia capaz de entregar, através de sistemas, análise de dados em tempo real, melhorando a tomada de decisão dos produtores rurais.

Outro exemplo é o que chamamos de “fazendas digitais”, empreendimentos que contam com dados integrados em que as próprias máquinas e equipamentos enviam informações via internet para um banco de dados central, e assim, subsidiam tomadas de decisões seguras e em tempo real.

Não há dúvidas, entretanto, de que os benefícios sistêmicos da transformação digital do campo, só ocorrerão quando politicas públicas focadas em aprimorar a conectividade em áreas rurais e acesso ao crédito rural forem implementados. Contudo, mudanças no papel do agricultor e o estímulo a uma cultura digital, são os dois fatores fundamentais para abrir espaço para o novo modelo de se fazer agricultura.

Collins e Porras, no livro “Feitas para durar”, ao ressaltarem a conduta de empresas visionárias e de sucesso, indicam a “Preservação da Essência” integrada ao “Fomento do Progresso e Inovação”, como caminhos para criar empresas sólidas, atemporais e que compartilhem valor com a sociedade.

Ao trazer essa visão para o contexto rural brasileiro, propomos uma reflexão: Seria a cultura arraigada no tradicionalismo o ponto nevrálgico que dificulta o estabelecimento de uma cultura mais digital, capaz de agregar progresso e inovação e dissolver os pontos de miopia do sistema agroalimentar, especialmente relacionados aos aspectos que causam grandes impactos socioambientais negativos?

Por acreditar que sustentabilidade é fluxo, e não estoque, e que esta se materializa através de uma mudança cultural de pessoas e negócios, os produtores rurais possuem uma oportunidade iminente de reinventar o campo através da sua própria reinvenção.

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